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A história do Elton
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A história do Elton

De perder tudo a licenciar-se em Engenharia de Minas. Hoje é o mentor da Cecília em Moçambique.

Por Elton Isaias Mulhui

2009–10Perde o pai, a mãe e um irmão
2016Termina o ensino secundário
2019Entra no projeto
4 anosEngenharia de Minas em Tete
2009–2010

Uma infância interrompida

Chamo-me Elton Isaias Mulhui e nasci em 1998. Sou filho de Isaias Mulhui e Rosa Mabunda. Aos seis anos comecei a escola primária. Tive uma infância feliz até que, em 2009, quando frequentava a sexta classe, a morte do meu pai por tuberculose mudou para sempre a vida da nossa pequena família. Deixou-me a mim, à minha mãe, que estava grávida, e à minha avó.

Depois dessa perda, a minha mãe teve de redobrar os esforços e trabalhar muito para sustentar a família. Infelizmente, no ano seguinte, em 2010, morreu durante o parto devido a complicações. O meu irmãozinho também não sobreviveu. Perder o pai, a mãe e um irmão em dois anos seguidos deixa uma dor que me acompanhará toda a vida.

2010–2016

A avó

A minha avó ficou a cuidar de mim. Na altura também vivia connosco um primo, filho da minha tia. A situação era cada vez mais difícil e dependíamos da terra para sobreviver. A minha avó, que sempre foi camponesa, cultivava legumes que depois vendíamos para pôr comida na mesa e juntar algum dinheiro para os livros da escola.

Apesar de todas as dificuldades económicas, ela sempre nos incentivava a continuar a estudar e fazia tudo o que podia para que não tivéssemos de deixar a escola. Graças ao seu esforço, e depois de superar muitos obstáculos, consegui terminar o ensino secundário em 2016.

2017

A Teresa

Em junho de 2017 conheci uma pessoa que mudaria a minha vida: a Teresa, que vinha de Barcelona. Fazia parte de um grupo que tinha chegado à minha aldeia com o projeto solidário NEPP, dedicado a ajudar crianças órfãs e em situação de vulnerabilidade.

Um dia, enquanto distribuíam alimentos e roupa, consegui falar com ela. Contei-lhe a minha história e disse-lhe que queria continuar a estudar e, se possível, ir para a universidade. Mas a pobreza extrema em que vivíamos fazia esse sonho parecer impossível.

Continuámos em contacto pelo WhatsApp. Muitas vezes perguntava-lhe se tinha encontrado alguma forma de retomar os estudos. A resposta era sempre a mesma: não tínhamos os recursos necessários. Nesse mesmo ano, em dezembro de 2017, sofri outra perda muito dolorosa: a minha prima morreu afogada num canal.

“Os vossos gestos têm um efeito real e podem transformar a vida de pessoas como eu.”
2019

A mensagem que mudou tudo

Em 2019, a Teresa disse-me que em breve receberia uma mensagem de um professor de Geografia. Ela tinha falado de mim à sua mãe, a Susana, diretora pedagógica do Institut Joan Boscà, e a Susana tinha contado ao Josep M., que promovia projetos solidários com os seus alunos. Nessa altura já estavam a ajudar uma rapariga da Serra Leoa, a Abi.

Poucas horas depois recebi a mensagem do Josep M. Depois apresentou-me à sua turma e conheci os seus alunos por videochamada. Pediu-me informação sobre o curso, a universidade e as despesas. Quando contei à minha avó, ela chorou de emoção.

Enviei-lhe toda a informação sobre Engenharia de Minas na Universidade Católica de Moçambique, em Tete. Não passou nem uma semana até me confirmar que me iam ajudar. Chorei de felicidade e abracei a minha avó: finalmente ia para a universidade.

2019–2023

Tete, a universidade

Nessa altura nem sequer tinha conta bancária. O Josep Maria orientou-me para abrir uma e receber o dinheiro para os estudos, a renda e as despesas do dia a dia. Pouco a pouco preparámos a minha mudança para Tete.

A primeira vez que atravessei a porta da universidade percebi que a minha vida tinha tomado um novo rumo. No primeiro ano passei a todas as cadeiras. No segundo, o Josep Maria apresentou-me à sua nova turma do 3.º ESO, e emocionou-me ver novos alunos a envolverem-se para que eu pudesse continuar.

Concluí o segundo, o terceiro e o quarto ano graças aos alunos, professores e famílias do Institut Joan Boscà e, mais tarde, do Institut Pedralbes e do Institut Escola Les Tres Fonts de Les Corts.

A história do Elton
A história do Elton
🎓 Licenciatura do Elton em Engenharia de Minas
Licenciatura

Engenheiro de Minas

Graças às famílias do Institut Escola Les Tres Fonts e às pessoas que participaram na primeira festa solidária em La Fatarella, terminei o último ano do curso e concluí o estágio profissional. Foi um caminho longo, mas cheio de aprendizagens, esperança e pessoas que acreditaram em mim.

Agradecimentos

Josep Maria, quero dizer-te algo do fundo do coração: para mim és parte da família. Acompanhaste-me durante todo este caminho, orientaste-me e animaste-me sempre que precisei. Não imaginas o que significava ler as tuas mensagens ou ouvir-te dizer que confiavas em mim. Embora só nos conheçamos por mensagens e videochamadas, sinto-te muito perto. E foi graças a ti que conheci a Abi, que hoje é quase uma irmã.

Obrigado aos alunos, professores, famílias e a toda a comunidade educativa das escolas Joan Boscà, Pedralbes e Les Tres Fonts de Les Corts. E a todas as pessoas de La Fatarella e de outros lugares que acompanharam a minha história: são muito importantes para mim.

Muito obrigado. Khanimambo!
Elton Isaias Mulhui

«Khanimambo» significa «obrigado» em changana, uma língua do sul de Moçambique.

E hoje?

O Elton é o mentor local do projeto e a pessoa de confiança da Cecília em Moçambique. O círculo da solidariedade fecha-se… e volta a começar.